Dia Mundial da Luta Contra o Câncer e 5 coisas que eu aprendi

Há três anos minha vida estava de cabeça pra baixo. Aos 24 anos, prestes a embarcar pra Barcelona pra cursar uma pós-graduação, eu descobri que estava com câncer. De lá pra cá foram 1 diagnóstico, 1 recidiva, 3 cirurgias, 33 sessões de radioterapia, muitas de fisioterapia e litros de protetor solar. Hoje está tudo sob controle, a vida segue normalmente (intercalada por baterias semestrais de exames) e não há sinais de doença. Porém, ao longo desses anos acabei aprendendo algumas coisas que acho que podem ser úteis para quem está passando por isso, seja como paciente, seja como acompanhante. Aqui vão:

1 – Não tenha medo da palavra câncer.

Ainda tem muita gente com medo de falar CÂNCER. Já ouvir inúmeras variações, como “C”, “aquela doença”, “a situação” etc. Galera, “Você-Sabe-Quem”, ou “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”, é Voldemort e só. Falar câncer não atrai, não dá azar e nunca foi comprovada nenhuma relação entre o surgimento de tumores com o uso do nome da doença.

Além disso, evitar falar a palavra acaba causando um medo ainda maior de toda a situação e agrava estigmas que precisam ser quebrados. Temos sim que falar sobre câncer. Muito. Informação é a maior ferramenta nessa luta.

2 – Use o Google com moderação.

Falando em informação… É absolutamente normal correr pro Google para buscar qualquer tipo de informação sobre a doença. A primeira coisa que qualquer pessoa faz quando descobre um câncer é isso. Eu fiz. E me arrependi. A única referência que achei de um caso parecido com o meu foi de um cara que acabou morrendo em decorrência da doença. Pânico desnecessário.

O problema do Google é que ele dá informações genéricas sobre a doença – especialmente se for um tumor mais raro, como era o meu. E como cada caso é um caso (falarei mais sobre isso) é provável que você se depare com informações que não tenham nada a ver com a sua situação. Portanto use o Google com parcimônia. Seu médico é a melhor fonte de informações que você poderá ter.

3 – Cada caso é um caso.

Outro hábito comum de quem está passando por um câncer (seja como paciente, seja como acompanhante) é se basear no caso de algum conhecido para tirar conclusões sobre diagnósticos, tratamentos etc. Não faça isso.

Seu caso é única e exclusivamente seu. Seu histórico médico, seu estado clínico em geral, a localização e grau de avanço do tumor, se tem metástase ou não, tudo é variável e interfere no diagnóstico, tratamento e recuperação. Seu corpo reagirá de determinada forma em cada uma das etapas e se comparar a outros pacientes (mesmo que do mesmo tipo de tumor) não só é desnecessário, como ainda gera uma expectativa que pode não se concretizar.

4 – Não se vitimize.

Você não tem culpa de ter câncer e não é uma pessoa pior (ou melhor) por causa disso. Seja forte (porque é um tratamento difícil sim, em todos os aspectos), mas não se entregue. Durante a rádio eu pude acompanhar alguns pacientes nas suas rotinas, e vi claramente a diferença entre os que se vitimizavam e os que encaravam aquilo como uma etapa que precisava ser vivida. E essa forma de encarar a doença não tinha nada a ver com a gravidade dela. Vi pessoas muito debilitadas vivendo dia após dia de cabeça erguida, e pessoas bem fisicamente (na medida do possível, claro), mas completamente entregues.

É difícil sim, mas mantenha sua rotina. Continue trabalhando/estudando/malhando/namorando/passeando e fazendo tudo que seu corpo permitir. Não se limite antes do limite chegar – porque pode ser que ele não chegue e você continue vivendo sua vida normalmente.

5 – Quer ajudar? Pergunte-me como.

O câncer é uma doença coletiva. Toda a família e amigos são pacientes também. Eles podem não sentir na pele as dores e desconfortos físicos do processo, mas também sofrem – e muito. Portanto, se você for o paciente, tente entender o lado deles. Se você for acompanhante e quiser ajudar seu amigo/parente a passar por isso da melhor forma possível, aqui vão algumas dicas:

– Esteja ali pro que ele precisar, mas não force a barra. As pessoas precisam de um tempo pra digerir o diagnóstico e tudo que vem pela frente. Mostre que ela não está sozinha e nunca ficará, mas dê o tempo que ela precisar até querer conversar sobre isso;

– A melhor ajuda pode ser resolver outros problemas. Essa é uma situação em que, infelizmente, só a equipe médica pode realmente fazer alguma coisa. Isso não significa que você não possa ajudar de outras formas. Pegar aquelas contas pra pagar, levar as crianças na escola, dar banho no cachorro, resolver as burocracias do plano de saúde – lidar com esses e outros problemas do dia a dia são pequenas/grandes ajudas.

– Alivie a barra. Seu amigo/amor está passando por uma situação difícil e fazer cara de defunto toda vez que encontrar com ele não ajuda em nada. Portanto, se estiver em um dia ruim, deixar a visita pra outro momento pode ser uma boa ideia. Não precisa fingir que nada está acontecendo. Converse francamente sobre toda a situação, pergunte como a pessoa está se sentindo, mas nunca, JAMAIS, fique com pena dela.

É isso. Sejam fortes, agarrem-se às coisas boas, sintam todo o amor que vem junto com as tristezas e fiquem bem. Precisando de qualquer coisa, é só falar. =)

 

Comentários

comentários

Deixe uma resposta