É ok andar de ônibus, tá?

onibus

Em São Paulo eu tive o privilégio de morar a duas quadras do meu trabalho. Poder ir e voltar andando pra casa foi uma das melhores experiências que pude vivenciar e poucas escolhas me trouxeram tanta qualidade de vida quanto aquela. 

De volta a Salvador, essa não era uma opção. Já voltei com morada escolhida e o trabalho acabou vindo depois. Resultado: moro em um canto da cidade e trabalho em outro, tudo muito bem separado por longos engarrafamentos, trânsito louco e nenhuma ciclovia.

No primeiro dia no novo ofício, entrei no modo piloto automático e resolvi ir de carro. Erro, grande erro, mega erro. Além do estresse normal de engarrafamento, perda de tempo etc, me surpreendi com outro problema: não tinha onde estacionar. O prédio não oferece vagas e, por perto, só estacionamentos pagos. Eu não queria trabalhar para pagar estacionamento, então fiz a coisa mais sensata que me ocorreu – resolvi vim de ônibus.

Moro pertinho de uma grande estação de ônibus, onde tenho várias opções de linhas disponíveis para chegar em meu trabalho em 10 minutos, de forma razoavelmente confortável. Como saio do trabalho entre 19h e 20h, acho a volta meio perigosa, então combinei com meu namorado de me buscar. Pronto, problema resolvido. Tudo bem? Não.

Vai comentar com alguém em Salvador que você anda de ônibus pra ver a cara de pena que as pessoas fazem! Até aí, tudo bem pra mim, não me importo nem um pouco com a forma como me olham. O que me incomoda é saber os motivos pelos quais aquelas pessoas estão me julgando. E esses motivos são bem errados.

Aqui (e acredito que em outros lugares desse Brasil também) as pessoas ainda associam seu modo de deslocamento com seu sucesso na vida. Elas misturam o que deveria ser apenas uma escolha de um meio de transporte com valores muito mais profundos e perigosos, como status, regras sociais, expectativas e outra série de imposições sutis que te dizem que, para ser bem sucedido (e ser visto dessa forma, o que é mais importante!) é preciso ter sempre o meio de transporte mais caro que você puder pagar. E assim, a gente criou uma pirâmide onde só se pode subir, sem olhar para trás.

Na base dessa pirâmide estão os ônibus, coisa de pobre e aceita somente quando for a única opção de transporte. Pertinho deles, as bicicletas, coisa de pobre que não quer gastar nem com o ônibus ou classe média excêntrica, esses hipsters. Depois, vêm os táxis. Ideais para quem não tem carro ainda, mas já não precisa se rebaixar andando de ônibus. Em seguida, vem a etapa mais importante da ascensão – o carro. Daí pra cima, só se pode pensar em melhorar o modelo, quanto mais caro melhor. Voltar a andar de ônibus depois de ter entrado na fase do carro? Oxe, tá maluco? Pra que você iria fazer isso?

Não precisa ser nenhum gênio pra perceber que essa “lógica” é surreal, estúpida e não traz benefícios pra ninguém, pra nenhum trânsito, pra nenhuma cidade. Cada meio de transporte tem suas particularidades, o que fazem deles soluções diferentes para diferentes ocasiões. Assim, em um deslocamento mais longo, para fora da cidade, o carro pode ser mesmo a melhor opção. Já para ir ali do lado, a bicicleta pode ser mais vantajosa. Da mesma maneira que, no meu caso, o ônibus era a melhor escolha, e por aí vai.

Se quisermos viver em cidades mais inteligentes, sustentáveis e humanas, precisamos sair do piloto automático e enxergar que os outros meios de transporte não são só etapas até o carro. São alternativas para facilitar a nossa vida e melhorar a nossa cidade. Cabe a cada um de nós percebemos isso e decidirmos qual a melhor maneira de chegar ao nosso destino naquele momento.

Então que tal começarmos a avaliar o que é mais vantajoso de verdade pra gente, pensar fora da caixinha e refletir sobre os motivos que levam a gente a fazer escolhas tão automáticas? Você pode acabar descobrindo que o melhor pra você não é aquilo que te disseram que seria. Pelo menos não todos os dias.

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