Empurrãozinho

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Outubro começou e, com ele, a campanha Outubro Rosa, que reforça a importância da detecção precoce do câncer de mama. Câncer é um troço difícil, e eu digo isso por experiência própria. Só tenho 26 anos mas já enfrentei um e sei bem como é. No início de 2012 eu fui diagnosticada com cancinoma adenóide cístico na parótida, um tipo de câncer maligno, bem agressivo e muito raro na minha idade. Felizmente ele foi descoberto a tempo, eu fui atendida pelos melhores médicos, tive acesso aos melhores tratamentos e hoje estou aqui só com uma cicatriz pra contar história.

Falando em história, na época do diagnóstico eu escrevi que texto que traduz muito do que eu senti naquele momento e acredito que muita gente deva sentir também. Então resolvi publicar ele aqui para que você, que está passando por isso ou conhece alguém que esteja, saiba que câncer é sim um negócio complicado, doloroso e apavorante, mas que ele também pode ser o maior empurrãozinho que a vida pode nos dar para nos ensinar a seguir adiante.

Sabe aquelas coisas que só acontecem em novela ou que você vê nos jornais e sempre acha que pode acontecer com as outras pessoas, mas nunca com você? Pois é, elas acontecem…
Há algumas semanas minha vida deu um duplo twist carpado e me fez ver que nada nesse mundo é certo. Certo no sentido de certeza, e não de correto, porque também ando vendo que não temos nenhuma condição de saber o que é correto e o que é errado no que diz respeito ao que está esperando por você nos próximos capítulos.
Pra quem não sabe, alguns dias antes de embarcar pra Barcelona, onde eu faria uma pós-graduação em comunicação digital, eu descobri que estava com câncer. Mais especificamente um “carcinoma adenóide cístico”, um tipo raro de câncer maligno que, no meu caso, se desenvolveu na parótida, que é uma glândula que fica do lado da orelha e uma das responsáveis por produzir saliva.
É… Isso mesmo… Eu, com 24 anos, cheia de planos e de malas (literalmente) prontas, tive que rebobinar tudo e mudar totalmente de direção.
Por que estou contando isso aqui (levando em consideração que esse é um assunto extremamente pessoal)? Porque isso tudo tem feito nuvens carregadas que rondavam meus pensamentos sumirem e darem espaço a um céu azul e muito, mas muito claro. Onde é possível enxergar que pessoas que te amam e que você ama é a única coisa que importa de verdade nessa vida. São elas as únicas capazes de fazer qualquer caminho ficar mais seguro e agradável, como uma armadura que vai abrindo os espaços e quebrando os espinhos. São elas que te protegem, te abrigam, te aparam, que cuidam de tudo por você, e que fazem piadas e compram coisinhas gostosas para você se sentir melhor, sem saber que é o simples fato delas existirem em sua vida que faz realmente você se sentir melhor (mas não quer dizer que os denguinhos e docinhos não tenham seu lugar de destaque, tá? Não me oponho…).
Só agora eu consigo ver com uma clareza absurda que certas coisinhas são só coisinhas, e que não tem absolutamente nenhum sentido se prender a isso como se fosse algo importante. O importante é ter saúde, ter família, ter amigos e ter amor. Quem tem isso não precisa de mais nada.
Sim, estou com medo e tenho que me controlar diariamente para não pensar no “e se…”. Mas medo não é problema. Medo faz parte do jogo. O negócio é ganhar dele. E quando isso acontece, você fica mais forte e vê que seus limites estão muito além do que você imaginava, como em uma corrida de aventura ainda mais real. Não é isso que determina seu nível de felicidade. São aquelas pessoas de quem eu falei lá em cima que ditam isso. E se for assim, meus amigos, eu posso assegurar que sou a pessoa mais feliz do mundo!
Resumindo, sabe aquela coisa de “um empurrão faz você ir pra frente”? É por aí. Levei um empurrão, e tô catando ficha até agora, mas tô sentindo que quando as coisas voltarem ao normal estarei metros à frente de onde estava antes desse vendaval. E espero profundamente poder retribuir todo esse amor, que jamais imaginei receber com tanta intensidade e de tanta gente, da forma mais sincera e verdadeira possível.
E espero também que você, que está lendo isso agora, nunca precise receber um empurrão desses para descobrir essas coisas. Em vez disso, aproveite. Mas não é pra aproveitar amanhã. É hoje, é agora, é a todo o momento. Esqueça as pequenas apurrinhações, elas são pequenas! Pare de tentar controlar tudo. Coloque na cabeça que você não controla nada, nem a sua vida, quanto mais a dos outros! Let it be! Carpe Dien! Enjoy! Não deixe nada pra amanhã! Ame, ame muito! Diga mais “sim” do que “não” e não deixei nunca que alguém que você gosta não saiba disso.
É, eu sei, isso está parecendo um texto de auto-ajuda. Me perdoem por tantos clichês, mas eles fazem mais sentido do que nunca… Bom, vamos deixar de lenga-lenga, o recado está dado. Se não for pedir muito, quem for de reza, reze por mim. Quem for de palavras, mande algumas para mim. Quem for de amor, me ame muito! Mas não faça tudo isso só pra mim. Pode ter certeza de que outras pessoas também vão ser mais felizes se receberem isso de você.

E para nós, moças, um apelo: vamos nos amar! Cuidar da nossa saúde não é amar só a nós mesmas, mas também a todos que estão à nossa volta. Cuide do seu corpo como quem cuida de um templo sagrado. Faça seu autoexame, consulte regularmente seu ginecologista/mastologista, faça a ultrassonografia, mamografia e todos os outros exames necessários. E se descobrir alguma coisa, respira fundo e encara. E vai por mim, já deu tudo certo!

 

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