Já deu tudo certo

Desde que eu descobri que estava com câncer, lá em 2012, uma frase apareceu em minha vida e virou uma espécie de lema: “Já deu tudo certo”.

Eu nunca soube se daria certo ou não mas, de alguma forma, dizer isso em voz alta era uma maneira de me convencer de que aquilo era só uma fase pela qual eu teria que passar e que, ao fim dela, tudo voltaria a ser como era.

E não funcionava só para mim. Essa era a resposta para qualquer pessoa que me olhava com um misto de tristeza, preocupação e pena, ou que me perguntava como eu estava, tentando encontrar na minha resposta um parâmetro de como ela deveria agir. Assim, o “já deu tudo certo” virou um amuleto para mim e uma maneira de direcionar as pessoas que estavam a meu redor para como lidar com aquilo. Era o meu manifesto.

Aí veio o dia da minha primeira cirurgia. Acho que foi 12 de abril, ou 14 de março (minha mãe que lembra todas as datas). E, apesar de ter repetindo milhões de vezes que “já tinha dado tudo certo”, eu não conseguia parar de chorar. Um medo pavoroso tomou conta de mim e nenhum consolo conseguia me levar de volta pro meu otimismo de até então.

Passaram-se dois anos e lá estava eu novamente, no mesmo lugar, com a mesma doença, dizendo a mesma frase de novo e de novo. “Já deu tudo certo”, “já deu tudo certo”, “já deu tudo certo”. O mantra que serviu para me acalmar na primeira vez, servia agora para me dar forças para passar novamente por todo aquele processo, já tão familiar.

No dia da segunda cirurgia não teve choro nem drama, só uma tristeza enorme. Eu estava triste não só pelo que eu sabia que teria que enfrentar nos meses seguintes, mas também por perceber que aquilo não tinha sido um problema pontual, uma grande aventura que tinha ficado no passado. Estava ali e faria parte da minha vida por muito mais tempo do que eu planejava. Ainda assim, eu só queria que aquilo terminasse e repetia: “já deu tudo certo”.

No final do ano passado descobri que estava com câncer pela terceira vez. Só que agora não era mais uma recidiva local, era uma metástase no fêmur. Isso significava muitas coisas. A doença tinha caído na corrente sanguínea e chegado sabe-se lá mais onde. Era sistêmica e não tínhamos mais controle nenhum. Só podíamos operar, e rezar, e esperar.

Mas, por uma dessas razões que a própria razão desconhece, alguns meses antes de receber o diagnóstico eu tinha entrado em um processo de autoconhecimento psicológico e espiritual que mudaria completamente a forma de ver as coisas. Em uma das sessões de terapia, um pouco antes da terceira (e mais dramática) cirurgia, minha psicóloga me perguntou o que era esse tal de “dar certo”. Eu não soube responder.

Até então, “dar certo” pra mim era tudo voltar “ao normal”, a ser como era antes. E aí que estava a pegadinha. Qual o sentido dessa nossa vida se a gente continuar sempre no mesmo lugar, ou no máximo no lugar esperado, seguro, planejado? Será que precisamos ter o controle da situação para que ela esteja dando certo? E, mais importante, se “dar certo” for sinônimo de felicidade, o que é capaz de, nesse exato momento, fazer com que você respire aliviado por tê-lo em sua vida?

No dia da cirurgia eu entrei no centro cirúrgico serena (com certeza talvez efeito do diazepam). Não teve choro, medo, tristeza ou raiva. Na verdade, enquanto esperava terminarem de preparar a sala, lembrei da pergunta da psicóloga e fique pensando no que seria “dar tudo certo”. Daí caiu a ficha.

Eu estava prestes a ser tratada pelos melhores profissionais, tinha uma família maravilhosa e um namorado companheiro me esperando ansiosos no quarto (rolou até um esquema de rodízio de crachás de visitantes), amigos grudados no telefone para saber de qualquer notícia minha, uma rede gigantesca de pessoas queridas que se mobilizaram nos quatro cantos do Brasil para que eu fosse tratada da melhor maneira e o mais rápido possível. Tinha gente que eu nem conhecia rezando por mim. Tinha gente que eu nem sabia o quanto gostava de mim, pensando e mandando boas energias. Tinha muito amor na parada. Tinha apoio, porto seguro. Tinha querer bem sem nada em troca. Tinha significado. Tinha uma existência feliz, apesar das dores. Tinha aprendizado, evolução. Tinha história pra contar. Tinha tudo isso – e não era só pra mim, mas pra todo mundo ao meu redor.

Eu sabia que, independente do que acontecesse naquela sala nas próximas horas, eu ia continuar sendo amada, cuidada, valorizada, incentivada. Teria acesso ao que o ser humano e a medicina têm de melhor. O que quer que acontecesse naquele centro cirúrgico, ou o que venha a acontecer daqui pra frente, a única certeza que eu tinha e que ainda tenho é que sim, já deu tudo certo. É isso. Já deu.

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One Reply to “Já deu tudo certo”

  1. Já deu certo, prima linda?

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