Sobre cidades, ciclovias e estacionamentos de shoppings

Foto: Caio Kenji/G1
Foto: Caio Kenji/G1

A cidade de São Paulo está em festa e não está sozinha. Todo o país observou com admiração e comemorou junto com ela a inauguração da ciclovia na Paulista. Muito mais que um espaço seguro para ciclistas, essa ciclovia é simbólica em muitos sentidos.

Ela representa uma mudança crescente e sem volta da nossa maneira de encarar o trânsito, um novo rumo para nossas cidades, uma outra forma de viver e compartilhar os espaços públicos. Ela simboliza a vontade de milhares de indivíduos de serem mais coletivos, menos isolados em seus veículos, mais pertencentes aos espaços ao seu redor.

A inauguração da ciclovia na Paulista é um marco porque representa o que centenas de movimentos lutam há anos – e que vai muito além da questão da bicicleta. É sobre cidades, sobre pessoas, sobre encarar a realidade, parar de se esconder em seus carros e condomínios fechados e botar a cara na rua para mudar o que precisa ser mudado.

A quase 2 mil quilômetros dali, na cidade de Salvador, outro assunto toma conta das conversas e redes sociais. Depois de anos de briga na justiça, os shoppings da cidade finalmente conseguiram liberação judicial para cobrar aos clientes o serviço de estacionamento. Teve quem xingou muito no Twitter, teve quem disse que ia boicotar, quem lamentou pelos lojistas e suas supostas perdas enormes em vendas, mas teve também que trouxe à tona um lúcido debate sobre o papel dos shoppings em uma cidade como Salvador, que tem pouca ou quase nenhuma vida comercial, social e cultural fora dali.

A discussão se estendeu aos raros comércios de rua, aos poucos procurados espaços culturais além-shopping, às escassas opções de lazer para dias de chuva (os de sol costumam ser reservados para a praia, ou costumavam, antes da derrubada das barracas, mas aí já é outra história). E a conclusão era sempre a óbvia: falta investimento, falta procura, faltam esforços de todas as partes.

E o que a ciclovia da Paulista e os estacionamentos dos shoppings de Salvador têm em comum? Ambos, em sua essência, surgiram do nosso erro de achar que quanto mais carro, melhor. Quanto mais fechado e “seguro” o ambiente, melhor. Quanto mais “protegido” da rua, melhor. Quanto mais isolados em nossos mundos particulares, melhor.

Em São Paulo, esse modelo de pensamento levou a cidade a entrar em colapso e fazer com que os próprios cidadãos tivessem que lutar arduamente para reaver sua cidade de volta – e é isso que a ciclovia representa. Em Salvador, o desespero causado pela privação do estacionamento mostra uma população ainda em torpor, sem se atentar para o risco dessa mentalidade, mas que precisa com urgência rever essa forma de pensar.

Uma cidade saudável, segura e produtiva é aquela que tem gente na rua, e não carros. A lógica é muito simples: quanto mais pessoas andando, mais comércio surgindo, mais bares, cafés, lojas e espaços culturais abrindo, mais dinheiro circulando, mais segurança, mais conexões humanas, mais ideias e iniciativas aparecendo, mais cidadania, mais cobrança por estruturas urbanas como calçadas, ciclovias, praças e parques, o que incentiva a mais gente ir pra rua, e por aí vai. É uma bola de neve positiva.

Espero que esses dois movimentos, tão opostos e tão parecidos, nos lembrem que no fundo, as cidades são feitas de pessoas e para pessoas. Todo o resto são só ferramentas que devem servir para facilitar as nossas vidas – e não ser o centro delas. Como diria Carlos Aranha, “A cidade é mais bonita com pessoas do que com carros.” Eu também acho.

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